quarta-feira, 22 de junho de 2011

Registro

Tive como mote algumas palavras: pessoal, comum a todos, sensorial, intimo, comunicar e cotidiano. Cheguei a conclusão de que banho é algo intimo, cotidiano e comum a todo mundo; pensei na minha limitação do toque e na minha relação diária com o banho e com a minha toalha. E criei a seguinte performance: Eu, Adhara Belo, vestida apenas com uma toalha, usando uma toca de banho na cabeça e um óculos escuros, saio da minha residência com uma mochila (que eu uso diariamente) nas costas e um sacola transparente carregada de coisas pra banho (shampoo, condicionador, bucha, sabonete, etc) e vou andando fazendo meu percurso diário até a Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA), esse caminho esta sendo gravado por um amigo com uma filmadora, e o vídeo acaba quando eu entro na ETDUFPA. Lá dentro a performance continua: sento em uma cadeira e começo meus procedimentos pessoais antes do banho (tirar cravos na frente de um espelho, tirar cutículas das unhas do pé, etc) intercalando com atos cotidianos que pratico dentro da instituição (tomar um café e fumar um cigarro); isso dá um ar confuso aos espectadores que vieram me perguntar diversas vezes se “aquilo” já era a minha performance (entretanto é necessário levar em consideração que a segunda parte do ato performático foi executado dentro de uma instituição de ensino da arte, logo as reações do publico são um pouco mais evasivas e diminui o índice de estranhamento). Dali parto para dentro de uma sala onde vou exibir o vídeo (com o tempo acelerado) do percurso que eu havia feito até chegar lá, em seguida convido as pessoas para tomarem um banho comigo: entro no banheiro, onde estão todos os artefatos pra banho que eu trazia na sacola transparente, deixo a toalha com o instrutor que fica na porta explicando as regras para cada participante, essas regras são denominadas ‘instruções de uso’ e estão numa folha de papel na porta do banheiro, junto com uma placa que indica ‘Cuidado! Piso Molhado!’. Essas pessoas vão entrando uma de cada vez, sempre vendadas, e passam trinta segundos lá dentro me dando banho; eu conduzo suas mãos de forma que me ensaboe ou lavem meu cabelo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vulcões e Espinhos

Pensando nos anos passados sinto a corrente que sempre puxa na direção contrária, lembro dos espinhos que, inevitavelmente, criei e lembro de todos os cuidados que tive com os meus vulcões em plena atividade. É difícil lidar com vulcões, extintos ou não, são sempre traiçoeiros. A sensação corporal que isso me traz é das melhores, porém o medo é dos piores. Os medos estão sempre presente, só é preciso aprender a controlá-los. No fim das contas o que me resta são os questionamentos diários e os tormentos provenientes das grandes decisões.
Atormentada, vejo um pássaro solitário migrando pro sul, sem motivação alguma de ir pro sul, indo porque seu instinto lhe obriga a ir. Chegou a fase onde é preciso ir, por mais que não se saiba pra onde ou porque, é necessário ir. Eu vou, tropeçando desajeitadamente com as asas que ainda nem acabaram de crescer, asas curtas e uma tanto quanto machucadas pelo tempo que nem sequer sustentam o meu peso. Ainda vejo aquele pássaro sem direção, no meio do caminho ele empaca, e se pergunta se é por causa do medo de seguir em frente ou por causa das angústias dos caminhos que já passaram. Os pássaros nunca estão completamente sozinhos, eis que surge uma revoada que também segue pro sul, por puro instinto de ir pro sul. Afinal, ninguém nem sabe o que tem no sul a não ser os planos de um lugar melhor.
Eu invejo a liberdade dos pássaros, o que me acalenta é imaginar que eles podem invejar a minha racionalidade, entretanto se invejam logo são tão racionais quanto eu. Nunca poderei ser pássaro, é necessário concentração demais para voar sem rumo e chegar no exato lugar onde se quer chegar. É preciso ter muito comprometimento consigo mesmo e com o seu bando, e ser responsável para usar de tanta liberdade com cautela. Corremos muito risco de vida quando somos pássaros, há muita objetividade envolvida nisso.
Talvez eu seja do tipo subjetivo, os sentimentos constituídos, as sensações registradas, me valem mais do que expor palavras e movimentos. Isso é complicado, amplia minha área de visão e dificulta a focalização. Confesso meus pecados sem precisar expô-los, deixando a responsabilidade da interpretação ‘adequada’ nas mãos do agente que recebe a mensagem. Minha dificuldade com as palavras é aparente, a coerência vai se perdendo aos poucos, e ficam notórias as tentativas frustrantes de permanecer no tema.

Lembro-me bem dos vulcões, intensos e momentâneos. Pássaros rondam vulcões. Estranho. Parece que eles sempre estão esperando o show que pode acontecer a qualquer momento. Também me lembro dos espinhos, pequenos e doloridos, que foram surgindo aos poucos como artefato de defesa. Os espinhos são frutos do medo, e este por sua vez faz parte da base instintiva e natural de todos nós, é o que nos move de verdade. Afinal sentir medo não significa não ter coragem.