quinta-feira, 4 de abril de 2013

Relato de Experiência.



Na disciplina Estágio II ministrada pela professora Inês Ribeiro para a turma que ingressou em 2010 no curso de licenciatura plena em teatro, nós fomos orientados a observar e acompanhar a disciplina Prática de Montagem I que faz parte da grade curricular do Curso Técnico em Ator da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), ministrada pelos professores Marluce Oliveira e Paulo Santana para a turma do primeiro ano do referente curso.

Tal disciplina tem como objetivo a prática do fazer artístico dos alunos, tendo como resultado final a apresentação de um espetáculo que foi montado ao decorrer da disciplina. Nesse caso é uma atividade integrada da instituição, onde para a realização do produto artístico final, alunos de todos os cursos ofertados (dança, teatro, cenografia e figurino) se unem, orientados pelos seus respectivos professores, em um único resultado. Assim, cada grupo de alunos dentro da sua esfera de atuação trabalham juntos para um bem comum: a montagem do espetáculo.

O texto sugerido pelo professor Paulo Santana, que foi eleito pelas turmas é do dramaturgo paraense Paulo Faria chamado Um Certo Faroeste Caboclo, inspirado na música Faroeste Caboclo da banda de rock do anos oitenta Legião Urbana com letra de Renato Russo. O espetáculo conta a história de João de Santo Cristo, o filho de um sem terra que sai de Conceição do Araguaia interior do Pará pra ir até Brasília buscar uma outra vida, com isso ele é corrompido pelas drogas e pelo rock se tornando um dos maiores traficantes da região e é assassinado por um rival. Desde o principio a ideia é de que o espetáculo fosse um grande musical, com corpo coreográfico e muitas canções.

Quando entramos em contato com a turma, eles já haviam selecionado o texto e estavam trabalhando a marcação do esqueleto da encenação em cima da dramaturgia, e em paralelo a construção das personagens e a preparação vocal. Porém ainda assim tudo estava muito cru, e de imediato identificamos o primeiro atrito: uma dramaturgia densa, forte, preenchida por uma juventude rebelde e revolucionária que esbarra num elenco jovem e cheio de energia, mas sem essa ferocidade da experiência de vida, logo o embate era claro, eles não compreendiam o texto, seja pela juventude de pouca vivência ou talvez por uma falha no processo de aprendizagem em algum momento, deduzindo que enquanto alunos eles foram condicionados a ler o que está a olho nu, e nesse momento falta a interpretação do texto, aquilo que está nas entrelinhas, o que para o nosso entendimento é uma ferramenta básica de trabalho do ator, uma obrigação.

Enquanto acadêmicos achamos necessário pontuar esse tipo de falha e pensar: se o erro vêm desde o nível médio era uma responsabilidade da escola educar o aluno quanto a isso? E quando o professor da ETDUFPA percebe a lacuna, existe o momento onde isso pode ser corrigido, ainda que a turma já tenha passado e sido aprovada numa disciplina chamada Interpretação? Ao nosso ver, esses questionamentos surgem a partir da análise dos processos avaliativos da própria instituição, pois somos orientados a exercer uma avaliação processual, diagnóstica e continua, contudo na prática o sistema educacional exige dos professores números no âmbito quantitativo, logo eles precisam aprovar alunos com boas médias e os diagnósticos conclusivos do processo não estão contemplados nos conceitos finais.

O processo foi árduo, a dramaturgia exigia um cuidado maior e a proposta de encenação a priori não cabia nos passos dos alunos, mas nada melhor do que uma direção escrupulosa para conduzir o elenco. Nesse aspecto surge outro questionamento, não devemos esquecer que esse espetáculo não pode fugir do caráter pedagógico, afinal ele faz parte de uma disciplina de um curso regulamentado pelo MEC, que tem como objetivo a prática do teatro e não a montagem do espetáculo enquanto um produto para a cidade. Entretanto quando o professor sai da sala de aula, metaforicamente falando, e vai para o teatro viver um processo de construção de cena com os alunos ele deixa de ser professor de uma turma e passa a ser o diretor de um elenco, essa postura, independente de se acordada ou não com a turma, é uma constante, tendo em vista que os professores são artistas da cidade, e é complicado dentro de um processo de encenação não ser o diretor e não visar o produto final e a sua qualidade estética. Quando o professor vira diretor, ele não precisa fazer plano de aula ou plano de disciplina, o que ele precisa é ensaiar o seu espetáculo para que tudo dê certo no final, dentro desse processo essa dualidade de comportamento foi o que mais nos instigou, porque quando lhes convinham os professores assumiam suas cadeiras e ameaçavam, àquela altura do campeonato, seus atores de serem reprovados, de modo geral esse tipo de atitude se aplicava a todos os professores coordenadores de todas as esferas a qual o espetáculo demandava. A questão a ser discutida nesse relatório é: de que maneira essas posturas influenciam no processo de ensino-aprendizagem dos alunos?


Mais uma vez nos deparamos com uma lacuna avaliativa, pois ao decorrer do processo alunos que tinham problemas básicos (dicção, projeção vocal, articulação, timidez, um corpo solto e sem vigor, etc.) cresceram, ganharam força, melhoraram consideravelmente, foram pra cena e fizeram um trabalho primoroso, assim como também tiveram alunos que entraram com uma dificuldade textual ou corporal, passaram pelo mesmo processo, apresentaram o espetáculo e foram aprovados com a mesma média que os outros na disciplina, continuando com os mesmos problemas e com uma evolução pouco produtiva. Reconhecemos a dificuldade que é avaliar um objeto artístico, mas é necessário ponderar as coisas a nível crítico e entender que aqueles atores são alunos e enquanto professores precisamos construir uma metodologia analítica que diz respeito ao desempenho dos alunos, levando em consideração não apenas as tarefas que foram cumpridas e sim como os alunos se desenvolveram ao decorrer da disciplina, nesse sentido o problema é: quem avalia é o professor, mas quem vive o processo é o diretor.


Para nós, discentes, essa experiência foi de extrema importância, tendo em vista que pudemos exercitar nossos conhecimentos adquiridos ao decorrer do curso não só em teoria, mas na prática também, pois os professores nos deram liberdade dentro do processo e assumimos funções e responsabilidades, por vezes fazíamos até assistência de direção, nossa presença nos ensaios não era meramente para observar, estávamos diretamente ligados ao espetáculo e todos os seus pormenores, viramos parte da equipe dentro do trabalho e tudo foi muito enriquecedor. Tudo que nos inquietou foi observado e analisado de perto, nossas reflexões tem base nas teorias que os nossos docentes nos repassaram e na análise da realidade a qual fomos inseridos.

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